Continuamos nesta semana a detalhar alguns dos assuntos mais polêmicos, e muito discutidos no congresso Europeu na Finlândia. São tecnologias auxiliares na técnica de fertilização in-vitro (FIV), desenvolvidas no intuito de aumentar a eficácia da técnica, ou seja, a chance de gravidez do casal.

# EMBRYO-GLUE PARA TRANSFERÊNCIA EMBRIONÁRIA: O meio de cultura utilizado para transferência embrionária deve oferecer suporte ao embrião em desenvolvimento, além de facilitar seu processo de implantação, que consiste nos fenômenos de aposição, adesão e invasão do endométrio.

Vários trabalhos científicos têm mostrado que a adição de proteínas aos meios de cultura embrionários melhora o desenvolvimento dos embriões no laboratório. Este processo já é rotina na FIV. Uma outra substância fundamental, que facilita o processo de contato e adesão de células e tecidos in-vivo é o Ácido Hialurônico, da classe química dos glicosaminoglicanos.

Então foram realizados estudos para descobrir se a adição desse Ácido Hialurônico ao meio de cultura utilizado na hora da transferência embrionária aumentaria a implantação. Foi desenvolvido um meio enriquecido com o Ácido Hialurônico, que tem nome comercial de EMBRYO-GLUE.

A maioria dos estudos científicos, inclusive com meta-análises, comparando o uso ou não do Embryo-glue na transferência, tem mostrado que o meio com ácido hialurônico pode aumentar a chance de implantação embrionária e gravidez. Este efeito estaria ainda mais pronunciado em casos de prognóstico ruim, como pacientes com mais de 35 anos ou casos de falhas de implantação.

Baseados nestes estudos, em nossa clínica já utilizamos há cerca de uma década, rotineiramente, o embryo-glue em todos os casos de transferência embrionária.

# FRAGMENTAÇÃO DO DNA-ESPERMÁTICO: Por muito tempo, apenas os parâmetros principais do espermograma (concentração, motilidade e morfologia espermáticas) foram utilizados para avaliar o potencial de fertilidade masculino. Mas este exame deixa muito ainda a desejar, pela variabilidade de produção no homem, e de análise laboratorial. Desta maneira, sua correlação com os resultados dos tratamentos ainda é baixa, salvo situações de alteração extrema.

O teste de fragmentação do DNA espermático mede lesões que o material genético (DNA) do espermatozóide sofreu desde sua produção no testículo, e ao longo do seu caminho para o epidídimo e ejaculação. Estas lesões são quebras nas moléculas do DNA, causadas por reações químicas que envolvam radicais livres de oxigênio, no chamado processo de oxidação.

A hipótese é que quanto mais alto o percentual de fragmentação do DNA espermático, menores as chances de gravidez natural ou através de tratamentos de reprodução assistida. Na fertilização in-vitro (FIV) esta lesão do DNA pode acarretar menor taxa de fertilização (formação do embrião), para de desenvolvimento embrionário, falha de implantação, defeitos genéticos nos bebês, ou ainda abortamentos.

Os estudos ainda são controversos porque existem várias maneiras de medir esta fragmentação, como os métodos SCSA, COMET e TUNEL. Portanto os resultados podem variar entre os métodos. E não se sabe com certeza em que casos esta fragmentação vai realmente dificultar a chance de gravidez na FIV.

Algumas evidências científicas mais recentes, inclusive meta-análises (compilação de vários trabalhos científicos), têm mostrado que o aumento da fragmentação do DNA espermático pode diminuir em cerca de 15 a 20% as chances de sucesso (taxa de gravidez, e taxa de nascidos vivos) na FIV. Mas são necessárias ainda maiores confirmações de novos estudos.

Quando se detecta esta situação no homem, os tratamentos sugeridos são corrigir hábitos de vida prejudiciais à função testicular (tabagismo, excesso de calor), e uso de suplementos vitamínico-minerais com ação antioxidante, na tentativa de reduzir os radicais livres ao nível da formação espermática.

# MICRO-TESE PARA OBTENÇÃO DE ESPERMATOZOIDES: Um dos maiores avanços na reprodução assistida, principalmente para os homens, foi o desenvolvimento da técnica de ICSI (injeção citoplasmática de espermatozoides) na fertilização in-vitro. Através deste procedimento é possível fertilizar usando apenas um espermatozoide para cada óvulo, já que ocorre injeção diretamente dentro do óvulo. Para comparação, na FIV convencional, são necessários cerca de 100 a 200 mil espermatozoides para cada óvulo coletado.

Com a ICSI passou a ser possível que homens sejam pais biológicos mesmo que tenham graves alterações na produção de espermatozoides. Inclusive é possível conseguir gravidez mesmo nos casos de azoospermia (ausência de espermatozoides no ejaculado). A azoospermia pode ser obstrutiva (o quadro clássico é a vasectomia), ou não-obstrutiva (alteração grave na produção testicular).

Nos casos de azoospermia, há necessidade de obter espermatozoides diretamente dos testículos, através de biópsia testicular, chamada TESE (testicular sperm extraction). O desafio é encontrar a área do testículo que tenha alguma produção de espermatozoides. Na azoospermia não-obstrutiva, apesar do espermograma estar zerado, na maioria das vezes existem focos isolados de pequena produção de espermatozoides. Porém, com biópsias “`às cegas”, pode não ser possível encontrar.

Desenvolveu-se, então, a técnica de Micro-TESE, que é a abordagem cirúrgica dos testículos com auxílio de microscópio. A vantagem é que a visualização é muito melhor, trazendo dois benefícios principais: primeiro facilita procurar e encontrar os túbulos seminíferos mais dilatados, com maior possibilidade de conterem espermatozoides; o segundo,é a precisão maior do corte e coagulação testicular, permitindo menor trauma e menor lesão ao tecido.

A maioria dos estudos clínicos realizados, comparando as duas técnicas, TESE convencional x Micro-TESE, tem mostrado que a obtenção de espermatozoides é mais frequente quando se usa a técnica microscópica.

Em nossa clínica, o Urologista parceiro tem à sua disposição o microscópio cirúrgico para realização da micro-TESE, e indicamos sempre este procedimento para obtenção de espermatozoides no homem que tenha a azoospermia de produção (não obstrutiva).

Boa leitura neste post. Próxima semana, voltaremos com a parte final dos temas mais controversos e discutidos no congresso 2016 da ESHRE.

Até breve !!

7 Comentários para “RESUMO E NOVIDADES DO CONGRESSO EUROPEU 2016 – PARTE 2”

  1. Juliana disse:

    Muito interessante o post! Bom ler textos escritos por quem se atualiza constantemente.

    Gostaria de saber se se discutiu neste congresso (ou em outro evento recente) sobre a eficácia da injúria endometrial após 1 falha de implantação.

    Tenho 35 anos, trompas enoveladas. Transferi um blastocisto submetido a NGS, estava com endométrio perfeito, mas não deu certo.
    Ainda tenho embriões congelados. Queria fazer tudo ao meu alcance pra que a próxima TEC seja bem sucedida. Meu médico disse que não há evidências que a injúria ajude após uma falha de implantação. Disse que basicamente devo repetir o protocolo da primeira tentativa. Qual a opinião do sr.?

  2. fabioeugenio disse:

    Oi Juliana,

    Ele tem razão. A indicação atual da injúria é para falhas repetidas de implantação. Uma falha isolada pode ser apenas probabilidade.

    Abs,

    Dr. Fábio Eugênio

  3. Sarah disse:

    Dr. Fábio Eugênio,

    Fui ovoreceptora e tive um negativo de TEC de um embrião aprovado no CGH com classificação 5A.
    Minha transferência deu-se depois de ter realizado o ERA e identificada a janela implantacional. Também já havia feito exames de sangue específicos de trombofilia que foram negativos. E ano passado realizei uma histeroscopia com biópsia que deu tudo ok.
    Como eu já tinha feito o ERA e meu embrião já havia sido aprovado no CGH, qual técnica posso utilizar para ter sucesso na próxima TEC?
    A injeção de HCG no útero horas antes da transferência ainda é utilizada?

  4. fabioeugenio disse:

    Oi Sarah,

    A chance de implantação com 1 embrião euplóide é em torno de 40 a 50%. A chance em nova tentativa é muito boa.

    E estes procedimentos como o ERA e injeção de hCG no útero não têm comprovação científica de eficácia.

    Abs,

    Dr. Fábio Eugênio

  5. Cremilde disse:

    Vcs atendem em Teresina pelo programa acesso

  6. renata disse:

    oi gente
    gostei muito desse site, parabéns pelo trabalho. 😉

  7. fabioeugenio disse:

    Oi Renata,

    Obrigado!!

    Abs,

    Dr. Fábio Eugênio

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