O Congresso Europeu de Reprodução (ESHRE – European Society of Human Reproduction and Embriology) ocorreu recentemente em Helsinque, capital da Finlândia. Como sempre, foi um evento maravilhoso da especialidade. Desta feita, quase 10 mil participantes vindos de toda parte do planeta- entre doutores, cientistas, médicos, professores, embriologistas e outros-, se reuniram durante 4 dias (3 a 6 de julho) para apresentar conferências, debater trabalhos e trocar experiências sobre as últimas atualidades da reprodução humana.

No geral, o congresso foi excelente para sedimentar conhecimentos, e nos fazer ver que estamos no caminho e direção corretos, quanto à aplicação das novas tecnologias e medicamentos que efetivamente melhorem as chances dos casais nos tratamentos de reprodução humana.

Podemos afirmar que não houve apresentação de nenhum método novo revolucionário. Nenhuma descoberta fantástica que venha modificar, a curto ou médio prazo, o modo como indicamos e fazemos fertilização in-vitro (FIV).

Mas os estudos continuados em várias etapas dos procedimentos de FIV, seja a estimulação ovariana, o preparo endometrial, a transferência embrionária ou os fenômenos de implantação, vem ajudando a comprovar determinadas práticas, e refutar outras, ajudando assim a refinar cada vez mais o procedimento de FIV.

Tentaremos, de maneira objetiva, neste post e nas próximas semanas, descrever um pouco sobre algumas destas técnicas que foram debatidas no congresso 2016 da ESHRE.

MONITORIZAÇÃO DO EMBRIÃO EM TEMPO-REAL: Também conhecida como Time-Lapse embryo imaging, consiste na filmagem contínua do processo de desenvolvimento (clivagem) dos embriões dentro das incubadoras.

Vários estudos estão sendo desenvolvidos com esta técnica. O objetivo é descobrir se determinado padrão de divisão celular do embrião influi na sua chance de implantação nos ciclos de FIV.

Muitos avanços têm sido obtidos. Foi descoberto que vários tipos de clivagem, e o tempo que o embrião leva para atingir cada estágio (2-3-4-8 células, e chegada a blastocisto) possuem relação com o potencial de desenvolvimento deste embrião, e, por vezes, com a chance de implantar.

Trata-se, portanto, de um enorme avanço para o estudo da embriologia, determinando mais precisamente como o embrião se desenvolve passo-a-passo nos primeiros dias de vida.

A grande dificuldade ainda tem sido utilizar esta tecnologia de modo prático na rotina dos laboratórios de FIV. Para começar é uma tecnologia ainda muito cara, agregando custos a um procedimento que per si já é oneroso ao casal. Requer uma incubadora específica, com o sistema de câmeras de monitorização dos embriões, além de software especializado.

E o principal: os estudos clínicos até esta data não mostraram superioridade do Time-lapse na seleção embrionária em relação aos métodos clássicos de seleção (análise morfológica). Portanto, apesar de parecer um avanço promissor, a técnica ainda precisa ser melhorada, e , principalmente mostrar que melhora efetivamente nossa capacidade de selecionar o melhor embrião a transferir: ou seja, que traz benefícios reais ao casal.

PGS (Preimplantation Genetic Screening): É a análise genética dos embriões, também conhecida genericamente como PGD. Porém, o termo PGS refere-se mais especificamente à análise cromossômica dos embriões antes da implantação no útero.

Esta técnica já foi desenvolvida há muito tempo. Através da biópsia embrionária (retirada de uma ou mais células do embrião), na fase de 3o dia em incubadora (D3) ou 5o a 6o dia (blastocisto), é possível estudar geneticamente o embrião.

O PGS foi muito questionado no passado, pois a técnica de análise realizada, o FISH, era pouco preciso e de alcance restrito, com resultados clínicos ruins, e até comprometendo a chance de gravidez do casal.

Porém, o aprimoramento das técnicas de biópsia embrionária, e as novas plataformas de análise genética utilizadas, como a CGH array e o NGS (Next Generation Sequencing) são extremamente precisas e abrangentes, conseguindo analisar todo o conjunto de 46 cromossomos do embrião, com muita segurança para a vitalidade deste embrião e para suas chances de implantação.

A detecção de alterações cromossômicas antes da implantação permite evitar ao casal a implantação de um embrião com aneuploidia. Um embrião alterado transferido em uma FIV quase sempre não implanta, e vai redundar em falha de implantação, ou em casos excepcionais pode redundar no nascimento de um bebê com alteração cromossômica.

Espera-se que a seleção de embriões normais pelo PGS aumente a taxa de implantação e reduza o número de falhas de implantação e aborto.

Há um consenso de que a melhor época para biopsiar o embrião é a fase de blastocisto, quando há cerca de 60 a 100 células, com a biópsia sendo feita na parte do blastocisto que vai formar a placenta (trofoectoderma). Desta maneira o risco de injúria ao embrião é menor, e a capacidade diagnóstica maior, pois se podem extrair e estudar várias células.

Apesar de também ser uma tecnologia ainda cara, o PGS é uma técnica hoje segura e bem estabelecida, e que pode ser utilizada com sucesso em casos específicos, mas não tem indicação de uso indiscriminado.

Os estudos confirmam que em casos selecionados o PGS pode aumentar a taxa de gravidez por transferência, mas não mudaria a chance cumulativa de gravidez (decorrente de várias transferências).

IMSI (High Magnification Sperm Selection): Nesta técnica, a seleção do espermatozoide para realizar a ICSI (injeção citoplasmática) é realizada sob alta magnificação, em microscópios capazes de aumentar em até 8 mil vezes a visualização do espermatozoide!!

A técnica de injeção citoplasmática de espermatozoides (ICSI) revolucionou o tratamento do fator masculino de fertilidade, e mesmo a FIV como um todo desde sua descoberta. Hoje é o procedimento mais utilizado no mundo para induzir a fertilização dos óvulos e formação do embrião, devido às excelentes taxas obtidas.

Uma preocupação sempre presente é que estejamos injetando no óvulo o espermatozoide mais normal possível. Portanto, a racionalidade desta técnica é permitir uma seleção mais acurada visualmente (microscópio) de um espematozoide morfologicamente perfeito. Com isso espera-se uma melhor taxa de formação de embrião, além de formar embriões de melhor qualidade.

Alguns estudos retrospectivos iniciais mostraram melhor qualidade embrionária quando a seleção do espermatozoide era feita pelo IMSI.

Porém, o avançar dos estudos, e principalmente a compilação de ensaios (estudos) randomizados e prospectivos – que são os mais importantes na prática clínica – não demonstraram superioridade da técnica de IMSI em relação ao ICSI convencional nos resultados de gravidez.

Alguns grupos no mundo advogam o uso da técnica para grupos específicos de casais, como nos casos de abortamento repetido, falhas de implantação, ou teratozoospermia severa (alteração grave da morfologia espermática). Mas mesmo nestes casos os resultados dos estudos são controversos em indicar que a técnica ajuda a melhorar os índices de gravidez.

Além disso, devemos destacar que a técnica é dispendiosa em custo, pois requer microscópio e sistema óptico específico, e dispendiosa em tempo, pois demanda horas de trabalho do embriologista na seleção de alta magnificação.

Confira imagens do Congresso:

Boa leitura neste post. Próxima semana, voltaremos com a parte 2 dos temas mais controversos e discutidos no congresso 2016 da ESHRE.

Até breve !!

13 Comentários para “RESUMO E NOVIDADES DO CONGRESSO EUROPEU 2016 – PARTE 1”

  1. Maritânia disse:

    Sou Maritânia de Natal tenho 34 anos e tenho uma filha de 10 anos tenho um grande desejo de ter mais um filho porém tento a 3 anos sem sucesso. já fiz vários exames inclusive o Fsh vários ciclos que o qual relata um valor de 19.34 Mu será que tenho chance Dr? Me Responda por favor

    Muito Grata

  2. fabioeugenio disse:

    Oi Maritânia,

    Pode haver chance sim. Se há óvulos de qualidade, mesmo com FSH alto, pode haver boas chances com a FIV.

    Abs,

    Dr. Fábio Eugênio

  3. Maritânia disse:

    Meu muito obrigado! Já entrei na fila do SUS para Fiv porém fui dispensada por já ter um filho em comum. 🙁

    Obrigada pela atenção

  4. Leniralves disse:

    Oi quero saber se eu posso te filho sou ligada posso fazer uma é fecundação eu tenho 37 anos

  5. Jandira disse:

    Bom dia dr. Eugênio
    Tenho 44 anos; tenho 2 filhos e retirei as trompas à 20 anos.
    Gostaria muito de engravidar de novo; porém meu fsh deu alto 20.1
    E o médico disse que só se for por ovuduacao; gostaria de saber se realmente é impossível tentar? Quais as chances? ? O sr. Tem resposta positiva de mulheres na minha situação? ?
    Tds os outros exames normais.

  6. Valéria cristal disse:

    Tenho 52 anos e a 8 meses não mestruo
    Já foi no ginecologista e me dia serão que estou entrando na menopausa…ainda corro o risco de engravidar acidentalmente? ??

  7. OI DR SOU EDILEUDA DE ITAREMA CE JÁ FIZ UMA CONSULTA COM VOCÊ EM FEVEREIRO DESTE ANO QUERO LHE INFORMA QUE ATE O FINAL DO ANO 2016 CONTINUAREI COM MEU TRATAMENTO JÁ ESTOU CUIDANDO DOS EXAMES TUDO ESTAR DANDO CERTO.,QUERO LHE INFORMAR QUE AS CONDIÇÕES SÃO POUCAS E POR ESSES MOTIVOS QUE ANDO DEVAGAR..UM ABRAÇO E QUE DEUS ME ABENÇOE E LHE ABENÇOE TB.

  8. fabioeugenio disse:

    Oi Lenira,

    Pode engravidar novamente sim, através da fertilização in-vtro (FIV).

    Abs,

    Dr. Fábio Eugênio

  9. fabioeugenio disse:

    Oi Jandira,

    As chances com seu óvulos existem, mas são baixas.

    Abs,

    Dr. Fábio Eugênio

  10. fabioeugenio disse:

    Oi Valéria,

    Muito raro nesta situação.

    Abs,

    Dr. Fábio Eugênio

  11. fabioeugenio disse:

    Oi Edileuda,

    Fica tranquila. Ficamos à disposição no que precisar.

    Abs,

    Dr. Fábio Eugênio

  12. Emília Fernando disse:

    Boa tarde Dt: chamo – me Fernando sou de Angola
    Estou a viver uma fase muito difícil da minha vida pois estou grávida pela quarta vez e só mãe de três meninos e descobri q terei mas um menino .
    Gostaria de saber se o Doutor pode me ajudar pois sempre teve o desejo de ter uma menina.
    Tenho 37 anos

  13. fabioeugenio disse:

    Oi Emília,

    Aqui no Brasil, a determinação do sexo do embrião na fertilização in-vitro (FIV) somente é permitido nos casos de doenças genéticas embrionárias.

    Abs,

    Dr. Fábio Eugênio

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