Estivemos participando recentemente do congresso 2014 da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA), que foi realizado em Salvador-BA, no período de 20 a 23 de agosto.

Trata-se do maior e mais importante evento nacional da especialidade. Durante quatro dias, na maravilhosa capital do estado baiano, os maiores especialistas em Reprodução Assistida do Brasil, e vários convidados internacionais, participaram de intensas atividades científicas como mesas redondas, conferências, debates, discussões clínicas, e apresentação de trabalhos científicos.

Vamos descrever aqui alguns assuntos e novidades bastante discutidos no Congresso.

A quarta-feira (20) foi reservada para cursos de reprodução humana oferecidos pela SBRA para o Ginecologista Geral, o profissional que está na linha de frente no atendimento às nossas pacientes, e quase sempre recebe primeiro as queixas do casal quanto à dificuldade de engravidar. É fundamental, portanto que o ginecologista saiba se conduzir na avaliação inicial do casal subfértil, estabelecendo o diagnóstico, indicando e realizando os tratamentos de baixa e média complexidade (indução de ovulação controlada e inseminação intra-uterina), e sabendo o momento adequado de encaminhar o casal para o profissional de reprodução assistida, evitando ao mesmo tempo o encaminhamento precoce, que pode implicar em tratamentos desnecessários, e também o retardo na indicação, o que pode trazer prejuízos irreparáveis para o potencial de fertilidade feminino (aumento da idade).

Os cursos tiveram como temas a avaliação diagnóstica de casais subférteis, como interpretar exames na área, como investigar a endometriose e indicar tratamento clínico e/ou cirúrgico, e como conduzir o homem com alterações leves na produção seminal.

Nas apresentações e debates que ocorreram nos dias seguintes, uma das discussões mais interessantes versou sobre a Estimulação Ovariana Controlada, que é o ponto inicial e fundamental de qualquer tratamento de fertilização in-vitro. Inicialmente o Dr. Ricardo Baruffi, de Ribeirão Preto-SP apresentou os modernos métodos de avaliação da reserva ovariana, ressaltando o papel cada vez mais importante do AMH (hormônio anti-mulleriano), ao lado dos já clássicos FSH e contagem de folículos antrais (ultrassom). Em seguida foram expostas estratégias sobre a estimulação nos extremos da resposta ovariana, ou seja, em baixas respondedoras (com poucos óvulos e risco de cancelamento do ciclo), e nas altas respondedoras (com risco de desenvolvimento da Síndrome do Hiperestímulo Ovariano).

Por fim, neste mesmo painel de estudos, o Dr. Renato Fanchin (França) apresentou a correlação entre uso de androgênios e a resposta ovariana. Neste ponto cabe ressaltar a presença deste ilustre convidado internacional no congresso. O Dr. Renato Fanchin é brasileiro e fez faculdade de medicina aqui no Brasil. Logo após a graduação foi estudar na França onde fez especialização e pós-graduação (doutorado), e passou a residir desde então, tornando-se professor e chefe da divisão de Medicina Reprodutiva do hospital Antoine Beclere na cidade de Clamart. Hoje é um dos mais prestigiados pesquisadores mundiais na especialidade, e seu grupo publica continuamente vários trabalhos científicos em importantes revistas, como a Fertility Sterility e a Human Reproduction.

O professor Renato Fanchin destacou as evidências que falam a favor da melhor resposta ovariana (produção de óvulos) quando existe um meio ambiente androgênico adequado dentro do folículo
. Existem várias maneiras de se tentar esta condição, como o uso do DHEA (poucas evidências favoráveis), os inibidores da enzima aromatase (como o Letrozol), e o uso de adesivos ou gel de Testosterona antes da estimulação ovariana (boas evidências favoráveis).

Dr. Fanchin apresentou ainda em primeira mão no congresso um projeto que está desenvolvendo em sua universidade, o qual apelidou de NATOS. É um tipo de estimulação ovariana controlada para FIV na qual realiza-se um bloqueio profundo da produção de LH (com antagonista de GnRH), fazendo com que os níveis sanguíneos de estradiol, a despeito do desenvolvimento de vários folículos maduros, fique dentro da faixa normal de um ciclo hormonal natural (daí o nome NATOS). Assim a paciente pode ter 10 a 15 folículos e vários óvulos maduros, mas ainda com níveis de estradiol na casa de 200 a 300 pg/ml.

Seu grupo descobriu que este protocolo permite coletar óvulos de excelente qualidade, e, devido ao nível fisiológico de estradiol, o endométrio fica extremamente receptivo, podendo aumentar as taxas de gravidez na FIV.

São estudos ainda muito iniciais (apenas relatos de casos), mas que abrem uma nova fronteira de pesquisa na tentativa de aumentar ainda mais o sucesso da FIV.

Estes são alguns dos destaques do nosso congresso. No decorrer das próximas semanas conversaremos sobre outros tópicos relevantes da medicina reprodutiva.

Boa leitura! Boa semana!

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