Diagnóstico genético nos embriões para risco futuro de câncer já é possível - Medicina Reprodutiva - Dr. Fábio Eugênio

Um exame laboratorial, realizado durante o processo de fertilização in-vitro (FIV), permite análise de embriões quanto ao risco hereditário de câncer de mama e ovário, e já foi validado cientificamente em estudo recente.

Pesquisadores europeus apresentaram os resultados deste estudo no congresso anual da Sociedade Européia de Reprodução Humana e Embriologia em Istambul, Turquia, no início de julho. O exame realizado é o PGD (diagnóstico genético pré-implantacional). Neste procedimento, uma célula (blastômero) é retirada do embrião durante o terceiro dia de cultivo laboratorial, durante um ciclo de FIV. Esta célula é submetida a análise genética, e várias doenças hereditárias (carreadas pelos genes maternos ou paternos) podem ser identificadas.

Esta técnica já está bem estabelecida na medicina reprodutiva para evitar a transmissão hereditária de doenças genéticas graves e até incompatíveis com a vida, como a fibrose cística. Ou ainda para reduzir o risco de bebês com alterações cromossômicas como a trissomia do cromossomo 21 (Síndrome de Down).

Este novo estudo concluiu que a técnica pode ser usada de forma confiável, para evitar que homens e mulheres que carregam mutações nos seus genes BRCA1 ou BRCA2 (que aumentam o risco de câncer) não passem os genes alterados aos seus filhos. Mulheres portadoras desta mutação genética têm possibilidade de 60 a 80% de desenvolver câncer de mama ao longo de suas vidas, e um risco de 30 a 60% (BRCA1) ou 5 a 20% (BRCA2) para o câncer de ovário.

O procedimento PGD permite aos médicos identificar quais embriões carregam esses genes, e, portanto, implantar no útero apenas embriões sem a mutação, eliminando assim a transmissão familiar das gerações descendentes.

O estudo analisou 145 ciclos de FIV em 70 casais onde um dos cônjuges possuía uma das mutações dos genes BRCA. Um total de 717 embriões foram formados destes casais, e cultivados durante três dias – quando são compostos por oito células. Neste ponto uma célula foi extraída e testada para a presença de uma mutação BRCA.
No total, 43% dos embriões estavam afetados, enquanto 40% não carreavam as mutações e foram considerados viáveis. Transferindo os embriões sadios, alcançou-se uma taxa de gravidez de 41%.

“Acreditamos que esta técnica oferece uma opção lógica para aqueles casais afetados que procuram evitar o risco de transmitir a mutação do BRCA para seus filhos”, disse o professor William Verpoest, da Universidade Vrije, em Bruxelas, que apresentou o estudo.

Dr. Stuart Lavery, diretor de FIV do Hammersmith Hospital, em Londres, disse que o estudo, publicado meses antes na prestigiosa revista Human Reproduction, era “muito relevante”.

Em sua apresentação o professor Verpoest reconheceu que ainda existem grandes controvérsias sobre a ética da do PGD para triagem de mutações dos genes BRCA. O ponto fundamental é que esta mutação aumenta, sem dúvida, a susceptibilidade aos cânceres de mama e ovário nas mulheres afetadas. Por outro lado, a presença da mutação não implica em uma inevitabilidade de desenvolver a doença. Vários outros fatores, genéticos e ambientais, alguns deles ainda pouco conhecidos, podem influir neste risco.

Os cânceres associados com as mutações dos genes BRCA ocorrem tarde na vida e, portanto, as opções para tratá-los estão constantemente melhorando. “A controvérsia ainda permanece sobre a aceitabilidade ética do PGD para uma condição de aumento de risco, mas ainda evitável”, disse ele.

O receio de alguns pesquisadores é que, com os avanços avassaladores da ciência e genética, em muito breve, várias situações de risco futuro nos embriões estarão identificáveis pelo PGD, como por exemplo hipertensão arterial e diabetes mellitus. São doenças que podem ser controladas, tratadas, e, em muitos casos, até evitadas. Seria ético não implantar um embrião somente porque ele contém algum gene ou mutação que confere um risco futuro maior destas doenças evitáveis???

São os dilemas da bioética que surgem pelos avanços da ciência. Vale sempre a máxima de respeitar sempre a autonomia dos casais, sem nunca esquecer os direitos do lado mais frágil da história que é o embrião, e a criança a nascer.

Boa leitura, amigos e amigas, e até o próximo post!!

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