O congresso Europeu continua a todo vapor. Estes dois dias (segunda e terça) foram muito intensos em conferências e apresentações de trabalhos clínicos de todas as partes do mundo. E com uma grata surpresa anunciada!

Desde Louise Brown, na Inglaterra, em 1978 (o primeiro bebê de FIV do mundo), já são mais 5 milhões de crianças em todo o mundo nascidas da técnica de fertilização in-vitro! Estes números foram apresentados durante o congresso, e enchem de orgulho e sensação de dever cumprido todos que trabalham na área de medicina reprodutiva.

Atualmente cerca de 1,5 milhões de ciclos de FIV são realizados por ano em todo o mundo, levando ao nascimento de 350 a 400 mil bebês/ano. Ao mesmo tempo em que prova que a FIV é um técnica segura, mais disponível, e aceita pelos casais, estas estatísticas nos estimulam a cada vez mais estudar e pesquisar para melhorar os resultados de gravidez aos casais que recorrem à técnica.

A SEGUNDA-FEIRA NO ESHRE

Uma compilação de vários estudos clínicos (meta-análise) apresentada por pesquisadores britânicos mostrou que a pesquisa de células NK (natural killers), e o tratamento com imunoglobulina venosa não traz benefícios para casais com subfertilidade que estão tendo dificuldades de sucesso com a FIV. O fator imunológico, apesar de absolutamente intricado com o processo reprodutivo e com a implantação embrionária, ainda é muito pouco entendido. Por isso os trabalhos são extremamente controversos em relação às terapias imunológicas.

Em relação à avaliação de reserva ovariana, Dr. Scott Nelson, da Inglaterra, reforçou a importância da utilização do ultrassom de contagem de folículos antrais, e do hormônio anti-mulleriano (AMH). São na atualidade os métodos com maior aplicabilidade clínica, ajudando a predizer a resposta dos ovários às medicações de estímulo.

A embriologista Laura Rienzi, da Itália, apresentou uma atualização sobre métodos de seleção de gametas (óvulos e espermatozóides) e embriões. As pesquisas mais avançadas são na análise morfocinética dos embriões (visualização em tempo real da clivagem embrionária), análise genética pela técnica da hibridização genômica (CGH) para selecionar embriões normais, e determinação do melhor embrião pelo exame dos metabólitos produzidos (metabolômica).

O endométrio tem sido extremamente estudado. O cientista Carlos Simon, da Espanha, mostrou pesquisas de ponta na avaliação da receptividade endometrial e da chamada “janela de implantação”, que é o período do ciclo em que o endométrio está receptivo ao embrião e a possibilidade de implantação é máxima. O principal avanço é a chamada Endometrial Receptivity Array, onde pela pesquisa de fatores presentes em um fragmento (biópsia) do endométrio é possível determinar qual o melhor período para implantação naquela paciente. E ainda o estudo de determinados lipídios na secreção endometrial. Os estudos estão bastante avançados e com resultados promissores. Certamente vão possibilitar uma melhor sincronização da transferência embrionária e melhora das taxas de gravidez!

Ainda nesta segunda-feira assistimos vários grupos de pesquisas no mundo observando um melhor resultado de gravidez na FIV quando no ciclo anterior se faz uma biópsia no endométrio. Parece que esta pequena lesão endometrial leva a alteração na maturação endometrial e produção de fatores de implantação embrionária, que aumentariam a possibilidade do embrião se fixar no útero. Estes resultados estão sendo observados pricipalmente em pacientes com falhas anteriores de FIV, mas também em mulheres que estão fazendo seu primeiro ciclo. Ficaremos atentos aos estudos confirmatórios !!

A TERÇA-FEIRA NO ESHRE

A Andrologia (fator reprodutivo masculino) foi bastante discutida neste terceiro dia de congresso.

Um grupo de pesquisadores brasileiros, de São Paulo, apresentou um trabalho muito interessante correlacionando positivamente a motilidade espermática, segundo os novos critérios de espermograma da Organização Mundial de Saúde (OMS), com qualidade embrionária nos ciclos de ICSI. Os outros parâmetros, como a concentração e morfologia, não foram tão importantes.

 Também apresentaram estudo demonstrando que a seleção de espermatozóides pela alta magnificação (Super-ICSI) pode melhorar as chances de gravidez na FIV em mulheres acima de 38 anos.

Outro grupo, da Well Cornell Medical College – Nova York , mostrou um estudo sobre os métodos de preparo de sêmen para inseminação , comparando a centrifugação, com o gradiente de densidade. Concluíram que o preparo de sêmen, em ambos os casos, consegue selecionar amostras de espermatozóides com menor fragmentação de DNA. E que os riscos de perda gestacional (aborto) parecem ser melhores quando se utiliza o método de gradiente de densidade.

A síndrome dos ovários policísticos (SOP) é sempre muito debatida. O Dr. Roger Lobo, da sociedade americana de medicina reprodutiva, apresentou uma fantástica atualização sobre o manejo destas pacientes. Chamou muita atenção para as estratégias de redução dos riscos de hiperestímulo ovariano na FIV destas pacientes: estimulação ovariana com rigoroso controle, uso do antagonista de GnRh para bloqueio hipofisário + agonista para disparar a ovulação, e , se necessário, congelamento embrionário eletivo. Comentou também para drogas acessórias nestes casos como a metformina e a cabergolina (Dostinex). Excelente palestra!

E o Dr. Gibbons, da Universidade de Houston no Texas – EUA, apresentou palestra sobre as estratégias para manejo das pacientes pobre respondedoras. São casos extremamente difíceis e quase sempre frustrantes: para os casais e para a equipe médica. Alguma evidência científica começa a surgir sobre o uso de adesivos de testosterona antes da estimulação ovariana para tentar melhorar a produção de óvulos destas pacientes. E ainda o uso do GH (hormônio do crescimento) com objetivo de aumentar a qualidade embrionária, e as chances de gravidez neste grupo.

Estes foram as principais apresentações destes dias.

Na quinta-feira publicarei um resumo geral dos destaques do congresso.
Até lá!

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