Neste momento estou participando do 28º Congresso da Sociedade Européia de Reprodução Assistida (ESHRE). Este ano o evento ocorre em Istambul, principal cidade da Turquia, de 1 a 4 de julho. Este é o link para o congresso: http://www.eshre.eu/ESHRE/English/Annual-meeting/Istanbul-2012/page.aspx/1381


Istambul é uma cidade ímpar no mundo. Situa-se no encontro de dois continentes, e por isso tem parte de seu território na Europa e parte de seu território na Ásia !! Por esta estratégica e privilegiada posição geográfica, desde a história antiga a região é disputada por várias nações. Já foi conquistada pelos Romanos e em seguida tomada pelos Turcos. A maioria de sua população é mulçumana, porém a variedade étnica de seu povo e a miscigenação lhe dá uma condição de tolerância religiosa muito ampla, e há convivência absolutamente pacífica com outros grupos religiosos como cristãos e judeus. Tem uma riqueza histórica incalculável, com monumentos antigos principalmente palácios, igrejas e muitas mesquitas.

Do ponto de vista científico, o congresso Europeu é uma maravilha. Este ano mais de 12.000 (doze mil !!) especialistas em reprodução humana de todo o planeta estão aqui nestes 4 dias para aprender, ensinar e trocar experiências.

  • DOMINGO –  PRIMEIRO DIA

 

No primeiro dia tivemos os chamados cursos pré-congressos. Participei de um curso denominado “Improving the outcome of IVF from ovarian stimulation to luteal support – an advanced course”, ou seja “ Melhorando os resultados da FIV desde a estimulação ovariana até o suporte de fase lútea – um curso avançado”.

As apresentações foram realizadas por cientistas de destaque em nível mundial na reprodução humana, como Dr. Mohamed Alboughar (Egito), Basil Tarlatzis (Grécia), e Paul Devroey (Bélgica), entre outros.

Muita ênfase foi dada às técnicas que podem melhorar as taxas de gravidez na fertilização in-vitro. Alguns destaques:

A estimulação ovariana é o passo inicial e básico para obtermos altas taxas de gravidez na FIV. Já existem estudos muito sedimentados mostrando que , em geral, todos os tipos de gonadotrofinas (recombinantes, urinárias) funcionam muito bem, e com resultados bem semelhantes. Porém parece haver uma ligeira superioridade da gonadotrofina urinária altamente purificada com efeito hCG em relação à melhor taxa de gravidez. Na prática, a diferença muito pequena (em torno de 3,5%).

Discutiu-se ainda a necessidade de que algumas pacientes teriam de associação de LH, além do FSH já utilizado, durante a estimulação ovariana. Parece que alguns grupos como as pacientes acima de 35 anos e as pacientes com baixa resposta se beneficiam desta adição.

O papel dos antagonistas de GnRH (Cetrotide ou Orgalutran) foi mais uma vez estudado, e as conclusões atuais é que oferecem taxas de gravidez semelhante ao uso de agonistas de GnRH (Lupron, Gonapeptil), com excelente perfil de segurança e facilidade de uso. Além de reduzirem o risco da temida Síndrome do Hiperestímulo Ovariano. Estão sedimentados na prática clínica.

A transferência embrionária precisa e atraumática foi enfatizada. É um passo crucial para um bom resultado. Como também o suporte de fase lútea com progesterona – indispensável. A progesterona vaginal (Utrogestan ou Crinone), pela excelente absorção é a forma de escolha. Alguns países utilizam a progesterona injetável, que também tem ótimo resultado, mas, convenhamos, é muito desconfortável por ser de aplicação intramuscular.

Em relação à implantação embrionária é fundamental corrigir qualquer alteração reprodutiva que possa dificultar a fixação do embrião ao útero, como a endometriose, a hidrossalpinge, os miomas (a depender do tamanho e localização), e os pólipos endometriais. Foi apresentado ainda um trabalho muito interessante do Egito com aplicação de hcG (gonadotrofina coriônica humana) na cavidade uterina imediatamente antes da transferência embrionária, demonstrando aumento interessante nas taxas de gravidez.

Por fim o Dr. Devroey (Bélgica) apresentou atualização sobre o uso da técnica de PGS (screening  genético pré-implantacional). Consiste na análise genética dos embriões com objetivo de prevenir aneuploidias e aumentar as chances de gravidez em pacientes de FIV com mais de 40 anos, utilizando-se a biópsia embrionária no terceiro dia, e análise dos cromossomos da célula por FISH. Porém, os estudos compilados são categóricos em afirmar que esta técnica não aumenta as chances de gravidez, e, na realidade, pode até diminuir, devido a trauma que possa causar no embrião. Por isso a tendência atual é não fazer a análise genética por FISH com esta indicação específica.

Como recentemente desenvolveu-se a técnica de análise cromossômica por CGH (hibridização genômica) que é muito mais completa e exata do que a FISH, com biópsia embrionária no 5º dia (blastocisto) que é menos deletéria ao embrião, parece que toda análise embrionária genética caminha para ser realizada por este método. Os resultados dos estudos iniciais são promissores, porém precisamos aguardar mais trabalhos científicos, com sedimentação da importância e validade da técnica de CGH.

Como vocês viram, a programação do curso foi excelente, de altíssimo nível, e com extrema aplicabilidade prática. E isto foi somente o começo !!
Amanhã volto com as novidades das apresentações intra-congresso.
Espero que tenham aproveitado a leitura, e até breve, diretamente de Istambul !!
 

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