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Uma preocupação de todo casal que recorre à técnica de fertilização in-vitro (FIV) para engravidar é saber se os seus bebês vão nascer perfeitos, sem defeitos de formação. Um estudo recente publicado na conceituada revista The New England Journal of Medicine lança luz sobre este assunto, e vem tranquilizar os casais que utilizam a técnica.

Existia sempre uma dúvida em relação ao procedimento: será que a utilização de tecnologia, mesmo que de alta performance, em uma situação tão frágil e complexa como a vida humana nos seus primeiros dias, poderia acarretar um maior risco de malformações nas crianças?

Esta hipótese tem sido exaustivamente estudada ao longo dos anos, pois há um compromisso muito forte da medicina em relação à segurança dos procedimentos oferecidos. Desta maneira, todas as crianças nascidas da técnica de FIV são criteriosamente acompanhadas desde o nascimento até a vida adulta.

Para discutir esta questão devemos esclarecer primeiramente que a formação embrionária na espécie humana pode sofrer alterações provindas dos óvulos, dos espermatozoides, ou aleatórias (que surgem ao acaso), e que podem levar ao desenvolvimento de bebês com malformações congênitas. Este risco existe em qualquer gestação, independente de ser espontânea ou por tratamento de reprodução humana, em qualquer população, e em qualquer idade, sendo porém aumentada em mulheres mais velhas.

De um modo geral, incluindo desde as alterações mais simples até as chamadas malformações congênitas maiores (que alteram muito a qualidade de vida ou são incompatíveis com ela), este risco é estimado em 2 a 5%, com pequenas variações entre os estudos.

Outro ponto importante a ser lembrado é que a população de casais que recorrem à FIV já tem um fator de risco médico que é a própria subfertilidade, nas suas mais variadas causas e apresentações. Além disso, a faixa de idade desta população, principalmente das mulheres, é na média superior à de casais férteis. Portanto, um pequeno aumento de risco de alterações nos bebês destes casais poderia se dever a estes fatores, e não ao tratamento de FIV em si.

As grandes vantagens deste estudo recente na elucidação desta questão são três. Primeiro, foi lançado em uma das revistas médicas mais conceituadas (e antigas) do mundo, o The New England Journal of Medicine, publicado (pasmem!!) há 200 anos, e referência de qualidade científica para qualquer médico no mundo. Segundo todos os fatores que poderiam levar a confusões na comparação estatísticas dos grupos estudados foram separados e controlados (idade, multiparidade, subfertilidade), reforçando a solidez clínica do resultado obtido. E, terceiro, a população estudada foi muito grande incluindo mais de 300 mil crianças nascidas, o que reduz substancialmente o risco de erros na interpretação e fatores de “confusão”.

No estudo eles compararam o resultado de gravidez (integridade física e neurológica da criança), ou seja, o risco de malformação congênita, em casais cujas mulheres receberam tratamento de reprodução assistida (FIV), mulheres que tiveram gravidez espontânea mas tinham filhos anteriores nascidos de FIV, mulheres com história de subfertilidade mas que engravidaram sem tratamento, e mulheres sem história de subfertilidade que engravidaram espontaneamente.

Os resultados encontrados mostraram que o risco geral de malformações em gravidezes que não envolveram reprodução assistida foi de 5,8%, comparado com 8,3% nas gravidezes que envolviam a reprodução assistida. Após ajuste para os fatores parentais citados anteriormente (idade, multiparidade, história de subfertilidade), as crianças nascidas a partir de FIV não tiveram aumento significativo de risco de malformação em relação às crianças concebidas naturalmente.

Casais com história de subfertilidade, tenham ou não recorrido aos métodos de reprodução assistida, tiveram um risco um pouco maior de bebês com alterações, comparando com casais de fertilidade normal.

Importante ainda registrar que nos casos de FIV em que se utilizou a técnica de ICSI (Injeção Citoplasmática de Espermatozoides), o risco de malformações também foi um pouco maior. A ICSI geralmente é utilizada nos casos de alterações graves da produção de espermatozoides, e acredita-se que este fator contribuiu para este resultado, podendo estar relacionado a alterações no cromossomo Y destes homens. Entretanto, destacam os pesquisadores, mais estudos são necessários para confirmar definitivamente esta associação.

Concluindo, excetuando os casos de graves alterações da produção de espermatozóides (ICSI), as crianças nascidas de fertilização in-vitro (FIV) não têm risco aumentado de malformações.

Este dado clínico é tranquilizador, mas não definitivo. O acompanhamento rigoroso e vigilância sobre todos os procedimentos, e sobre os bebês da reprodução assistida continuam, para segurança das famílias formadas com a ajuda desta nobre especialidade – a medicina reprodutiva.

Boa semana, e até o próximo post!

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