Preservação da fertilidade em mulheres com câncer - Medicina Reprodutiva - Dr. Fábio Eugênio

Conforme tratado no post anterior, a preservação da fertilidade de pacientes com câncer tem ganhado destaque na Medicina Reprodutiva atual. Para as mulheres, os riscos para a fertilidade dependem de vários fatores, tais como, o tipo de câncer, a idade da mulher, o tipo de terapia (cirurgia, quimio ou radioterapia), o tipo e dose das drogas utilizadas. Em geral, a quimioterapia em altas doses e a radioterapia de corpo inteiro ou pélvica, têm grande possibilidade de causar destruição dos folículos primordiais do ovário, levando à falência ovariana prematura e infertilidade irreversível. Dessa forma, os recursos utilizados para a preservação da fertilidade vão depender dos fatores citados acima assim como, da presença ou não de união estável com parceiro, e do desejo futuro de ter filhos.

Quando o tratamento da doença é através de radioterapia com incidência pélvica, a transposição dos ovários (reposicionamento cirúrgico dos ovários fora do campo de radiação) é a saída mais indicada, com taxas de sucesso em torno de 50%. Este procedimento somente tem eficácia quando se utiliza radioterapia exclusiva. Estudos científicos têm sido realizados, ainda com resultados controversos, na utilização de drogas que possam ser administradas em concomitância com a quimioterapia para prevenir os danos aos ovários.

Em mulheres em idade fértil com união estável, o tratamento com melhores resultados é a indução da ovulação com coleta de vários óvulos maduros, antes da primeira sessão de quimo e/ou radioterapia. Estes óvulos podem ser injetados com os espermatozoides do parceiro, e os embriões produzidos serão criopreservados, para serem transferidos ao útero da mulher depois de concluído o tratamento. Se não houver parceiro ou união estável, os óvulos são criopreservados para utilização futura. A criopreservação ovocitária, que até pouco tempo tinha resultados práticos ruins pela dificuldade prática de congelamento dos óvulos, tem evoluído consideravelmente.

Em mulheres pré-menarca, crianças e adolescentes que ainda não atingiram a maturidade ovariana, os tratamentos ainda são de caráter experimental, porém com perspectivas animadoras. A criopreservação do tecido ovariano está sendo extensivamente estudada e realizada em todo o mundo. Antes do tratamento para o câncer, realiza-se a retirada de um ovário da mulher. Este ovário é fatiado e criopreservado. Futuramente, quando a paciente quiser engravidar, descongelam-se algumas destas fatias, que serão transplantadas para o corpo da paciente.

Espera-se, assim, que com isso, estas “fatias” readquiram sua funcionalidade, produzindo hormônios sexuais, e liberando óvulos maduros. A primeira gravidez com esse tratamento foi descrita em 2004. Desde então, somente seis crianças em todo o mundo nasceram através desta técnica. Levando em conta os avanços rápidos obtidos nas técnicas de criopreservação e de transplante ovariano, esta opção se desenha como o futuro padrão-ouro na preservação de fertilidade em mulheres com câncer.

Importante ainda frisar, para tranqüilidade dos futuros papais e mamães que, as evidências científicas atuais não mostram aumento de risco para recorrência do câncer devido aos tratamentos para preservação de fertilidade, ou devido à gravidez futura. E ainda, excetuando os casos de síndromes genéticas de câncer hereditário e a exposição intra-útero à quimioterapia, não há qualquer evidência de que uma história materna ou paterna de câncer, de tratamento para câncer, ou de terapia para preservação de fertilidade nestes casos, aumente o risco de anormalidades congênitas ou neoplasias nos seus futuros filhos (as).

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